A discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhou força em todo o Brasil e se tornou uma das pautas mais debatidas entre trabalhadores, empresários, especialistas e representantes do setor produtivo. O tema, que envolve a possível redução da jornada de trabalho e a adoção de modelos como a escala 5×2, vem gerando grande repercussão nacional por impactar diretamente as relações trabalhistas, os custos operacionais das empresas e a dinâmica econômica de diversos setores.
Enquanto parte da sociedade defende a mudança como uma forma de promover mais qualidade de vida, equilíbrio emocional e aumento de produtividade dos trabalhadores, outro lado alerta para os desafios econômicos e estruturais que a medida pode causar, especialmente para micro e pequenas empresas que possuem menor capacidade financeira e operacional para absorver mudanças bruscas.
O debate se intensificou após posicionamentos públicos de entidades nacionais e discussões políticas sobre possíveis alterações na legislação trabalhista. Em todo o país, federações, associações comerciais, sindicatos empresariais e representantes do empreendedorismo passaram a defender que o assunto seja tratado com cautela, responsabilidade e amplo diálogo entre todos os setores envolvidos.
Nesse contexto, a FACER se posiciona favorável à construção de um debate equilibrado, técnico e responsável sobre a pauta. A entidade entende que discutir qualidade de vida e modernização das relações de trabalho é legítimo e necessário, mas reforça que qualquer mudança precisa considerar a realidade econômica das empresas brasileiras, principalmente das micro e pequenas empresas, responsáveis pela maior geração de empregos formais no país.
“Somos favoráveis ao diálogo e à busca por melhores condições para os trabalhadores, mas é fundamental que qualquer mudança seja construída com responsabilidade e ouvindo quem está na ponta gerando empregos. As micro e pequenas empresas precisam fazer parte dessa discussão para que não haja impactos negativos na economia e na manutenção dos postos de trabalho”,destacou o presidente em exercício da FACER, Cícero Alves Noronha Filho.
Para a FACER, decisões relacionadas à jornada de trabalho não podem ocorrer sem estudos aprofundados sobre impactos financeiros, produtividade, geração de empregos, competitividade e sustentabilidade dos negócios. A federação destaca ainda que setores como comércio e serviços dependem de atendimento contínuo e possuem características operacionais diferentes de grandes corporações, exigindo análises específicas e transições planejadas.
A entidade também reforça que o fortalecimento da economia e a valorização do trabalhador devem caminhar juntos, sem que medidas precipitadas comprometam empresas, empregos e o ambiente de negócios, especialmente em estados como Rondônia, onde o empreendedorismo exerce papel fundamental no desenvolvimento econômico e social.
Setor produtivo questiona Sebrae sobre posicionamento favorável à escala 5×2
As entidades representativas ligadas aos setores do comércio de bens, serviços e turismo, microempresas, agronegócio e associações comerciais do Estado de Rondônia enviaram uma Carta Conjunta à presidência do Sebrae-RO buscando esclarecimentos sobre seu posicionamento favorável ao fim da escala 6×1.
A carta, subscrita pelos presidentes da Fecomércio-RO, FACER, SIMPI e FAPERON, foi endereçada ao presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae-RO, Darci Cerutti, com base na manifestação de microempresários preocupados com a posição institucional adotada, classificada como “contrária aos interesses das classes produtivas”.
No documento, os líderes demonstraram preocupação com o posicionamento do Sebrae-RO ao citarem estudos e projeções apontados, por exemplo, pela CNC (Confederação Nacional do Comércio), que classificam a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 como medidas impactantes e danosas para a economia do país.
“O setor produtivo tem apontado, por meio de estudos, impactos potencialmente negativos e significativos sobre a rentabilidade da atividade comercial no Brasil, caso a redução da jornada de trabalho seja implementada sem a devida análise e compensação”, diz um trecho da Carta Conjunta.
Adiante, o documento aborda o risco do crescimento da informalidade e o prejuízo ao próprio trabalhador e a toda a dinâmica do mercado de trabalho, questionando:
“Considerando que o Sebrae é mantido pelos empresários e que a base de microempreendedores — que muitas vezes não empregam — tem sido utilizada como argumento no debate, gostaríamos de entender qual é a posição oficial do Sebrae de Rondônia sobre esta questão”.
Ao finalizar, os representantes das entidades solicitam ao presidente Darci Cerutti sua consideração sobre o fim da escala 6×1 — se ela trará prejuízos aos negócios locais — e qual a sua visão sobre os efeitos desta medida para os micro e pequenos empresários rondonienses.
Assinam o documento:
• Raniery Araujo Coelho — Presidente do Sistema Fecomércio-RO e Vice-Presidente da CNC;
• Cícero Alves Noronha Filho — Presidente em exercício da Federação das Associações Comerciais e Empresariais de Rondônia (FACER);
• Leonardo Heuler Calmon Sobral — Presidente da Federação das Entidades de Micro e Pequenas Empresas de Rondônia (FEEMPI) e 1º Vice-Presidente do SIMPI Nacional e do Sindicato da Micro e Pequena Indústria (SIMPI);
• Hélio Dias — Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Rondônia (FAPERON).
Empresários serão ouvidos para medir impacto real da mudança
Em reunião do setor produtivo, a FEEMPI, que representa as micro e pequenas empresas; a Fecomércio, do comércio, serviços e turismo; a FACER, ligada aos setores de comércio, indústria e serviços; e a FAPERON, da agricultura e pecuária, decidiram realizar uma pesquisa com micro, pequenos, médios e grandes empresários de Rondônia para medir, na prática, o que pensam os empreendedores locais sobre o debate envolvendo o fim da escala 6×1 e a possível adoção da jornada 5×2.
A iniciativa surge após a divulgação de uma pesquisa nacional do Sebrae sobre o tema.
Segundo a 12ª edição da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, divulgada em abril, 51% dos donos de micro e pequenas empresas e microempreendedores individuais afirmaram que o fim da escala 6×1 não teria impacto sobre seus negócios.
Interpretado pelo Sebrae como um indicativo de aprovação à mudança, o dado, na avaliação dos representantes empresariais, precisa ser analisado com mais profundidade.
O levantamento nacional foi realizado entre 19 de fevereiro e 18 de março de 2026, com 8.273 respondentes em todos os estados e no Distrito Federal. Para as entidades representativas das categorias econômicas, no entanto, os números nacionais não podem ser interpretados como se representassem automaticamente a realidade dos diferentes setores, regiões e perfis de pequenos negócios.
As entidades avaliam que é preciso ouvir diretamente os empresários, especialmente aqueles que vivem a rotina do comércio, dos serviços, da indústria, da alimentação, das oficinas, dos salões, dos mercados e de outras atividades que dependem de mão de obra presencial e funcionamento contínuo.
A pesquisa encomendada pelo setor produtivo deve ouvir pelo menos 600 empresas em Porto Velho e outras 600 no interior do estado. O objetivo é construir um retrato mais fiel da opinião dos empreendedores rondonienses sobre temas que impactam diretamente a rotina, os custos e a sobrevivência dos pequenos negócios.
Entre as perguntas previstas, os empresários serão consultados sobre qual modelo consideram mais adequado para a realidade de suas empresas: a escala 6×1 ou a jornada 5×2.
Também serão questionados se aprovam ou não a alteração da escala atual para um novo formato de jornada.
Além do debate trabalhista, o levantamento também vai avaliar a relação dos pequenos empresários com os serviços oferecidos pelo Sebrae. A intenção é verificar se, na percepção dos empreendedores, os atendimentos, programas e soluções disponíveis realmente chegam às empresas e atendem às necessidades do dia a dia.
Outro ponto da pesquisa será a percepção dos empresários sobre instituições financeiras.
Os representantes patronais pretendem identificar quais bancos despertam maior resistência entre os pequenos negócios, especialmente em um cenário em que acesso a crédito, taxas, atendimento e confiança são fatores decisivos para quem empreende.
Segundo as entidades, a proposta é que o resultado da pesquisa apresente uma visão mais próxima da realidade local, evitando que dados nacionais sejam usados de forma genérica em discussões que afetam diretamente empresas de diferentes tamanhos, setores e regiões.
O debate sobre o fim da escala 6×1 segue em discussão no Congresso Nacional e envolve propostas que tratam da redução da jornada de trabalho e da reorganização dos dias de descanso.
Para os dirigentes, qualquer mudança desse porte precisa considerar os impactos sobre os pequenos negócios, que têm menor margem financeira, menor estrutura de gestão e maior dificuldade para absorver aumentos repentinos de custos.
A expectativa é que o levantamento comece nesta semana e que os primeiros resultados sejam divulgados na próxima semana.
Com os dados em mãos, o grupo pretende apresentar a realidade dos pequenos empresários de Rondônia sobre a escala de trabalho, o atendimento das entidades de apoio e a relação com bancos e serviços financeiros.
Para os dirigentes, ouvir quem está na ponta é essencial para que o debate avance com responsabilidade. Afinal, decisões sobre jornada de trabalho não podem ser tomadas apenas com base em diretrizes meramente ideológicas.
É necessário garantir o equilíbrio entre produtividade e saúde do trabalhador, considerando também a realidade de quem abre a empresa todos os dias, gera empregos, paga impostos e enfrenta, na prática, os desafios de manter um pequeno negócio funcionando.


